Uma introdução sobre o narcisimo
- Fábio Monteiro

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O presente artigo foi produzido coletivamente para a aprovação na cadeira "História da Psicanálise I - Proposições Iniciais e fundamentos metapsicológicos", lecionada pelos profs. Dr. Jonas Boni e Ms. Maristela Spera, no curso Psicanálise: Teoria e Clínica, Univap 2026/01. O grupo foi composto por: Andreia Santos, Barbara von Atzingen, Fabio Monteiro, Isabela Mendes, Talita Fróes, Luciana.
RESUMO
O artigo a seguir apresenta um resumo das interpretações e debates promovidos pelo grupo acerca do texto “Sobre o narcisismo: uma introdução”, publicado por Freud em 1914 na Revista Ano da Psicanálise. O itinerário do artigo é iniciado com algumas considerações sobre a importância dos dicionários no estudo da Psicanálise, com destaque para como eles apresentam e operam o conceito de narcisismo. Na sequência, o texto costura algumas considerações dos componentes do grupo sobre categorias analíticas que emergem do texto de Freud, tais como o caráter metapsicológico do texto, a libido do Eu e a libido do objeto, o narcisismo primário e o secundário e o ideal de Eu e o Eu ideal. Ao final, o grupo conclui com algumas breves considerações sobre a presença do narcisismo no contemporâneo e suas implicações nas formas de subjetivação neoliberal.

INTRODUÇÃO
O que define um dicionário? A princípio, entende-se que ele é uma obra de referência lexicográfica ou mesmo um registro abrangente ou mesmo o mais completo possível de uma língua, de uma área do saber ou de um campo de estudo. Contudo, o professor Daniel Omar Perez nos chama a atenção para como os dicionários podem ser lidos como entradas conceituais, como linhas de fuga que nos conduzem às potencialidades de categorias presentes, por exemplo, no campo da Psicanálise.
Em outras palavras, ao se partir de uma perspectiva deleuziana, os dicionários implicam no reconhecimento das diferenças subjacentes às repetições dos termos neles presentes. Por exemplo, em que pese a repetição do termo “narcisismo”, eles abrem um campo de investigação das condições de possibilidade que essa categoria alcançou desde que, em 1914, deixou de ser entendido como uma patologia para ser interpretado como um fenômeno libidinal que ganhou centralidade na teoria do desenvolvimento sexual do ser humano.
Como se sabe, o Vocabulário de Psicanálise escrito por Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, publicado pela Presses Universitaire de France (PUF) em 1967, é um marco no campo da teoria da Psicanálise. A obra foi orientada por Daniel Lagache (1903-1972), renomado intelectual professor da Sorbonne que, dentre outras coisas, se destacou pela confluência entre Filosofia, Psicanálise e Psiquiatria e pela fundação da Sociedade Francesa de Psicanálise junto com Lacan, em 1953.
Nele, o termo “narcisismo” aparece em mais de cem ocasiões atravessando dezenas de outras categorias analíticas freudianas. O verbete de Laplanche e Pontalis é estruturado em três tópicos. De início, fazem uma rápida referência ao mito grego de Narciso para, então, destacar que o termo é utilizado pela primeira vez por Freud em 1910 para explicar a “escolha de objetos nos homossexuais”. A seguir, os autores indiciam o uso do termo na análise do Caso Schreber (1911) e também em Totem e Tabu (1913) demonstrando como, nesse momento, Freud assume o narcisismo como uma “fase da evolução sexual intermediária”.
No segundo tópico, o verbete parte para o artigo de 1914 demonstrando como Freud opera o termo narcisismo a partir de uma economia libidinal, isto é, uma vez que o ego é um “grande reservatório de libido”, existe então uma dinâmica, um princípio de conservação da energia libidinal que oscila entre “libido do ego” e a “libido objetal”. Portanto, o narcisismo ganha um valor estrutural em sua teoria explicando, assim, as razões pelas quais o artigo de 1914 é classificado dentre os textos metapsicológicos de Freud. Por fim, o terceiro tópico do verbete problematiza a natureza e extensão das categorizações do narcisismo primário e secundário e abre espaço para um novo verbete que se dedica às consonâncias e diferenças entre esses conceitos que, de saída, já é apresentado com a ressalva de terem “acepções muito diversas” que impedem uma definição unívoca.
Publicado trinta anos mais tarde, o Dicionário de Psicanálise de Élisabeth Roudinesco e Michel Plon propõe um território mais abrangente ao atualizar os verbetes com a história dos conceitos, aspectos biográficos e citações de casos de clínicos, além muitos outros aportes. O termo “narcisismo” ocorre 144 vezes ao longo de todo o dicionário reafirmando-o, assim, como um elemento estruturante na literatura teórico-clínica de Freud. Ao contrário de Laplanche e Pontalis que optam por uma nota de rodapé, Roudinesco e Plon abrem o verbete chamando a atenção para a emergência do termo “narcisismo” entre 1887, 1898 e 1899, respectivamente, primeiro como fetiche, depois como perversidade e então como categoria criminológica nas Ciências então emergentes.
Diferente de Laplanche e Pontalis, os autores então chamam a atenção para a referência ao termo no texto Três ensaios sobre a teoria da sexualidade e em seu ensaio Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância (1910). Assim como Laplanche e Pontalis, o segundo momento do verbete destaca como o narcisismo aparece como resultado das dinâmicas da economia libidinal que oscilam entre os objetos do mundo externo para o Eu do sujeito. Na sequência, Roudinesco e Plon reafirmam a problemática existente na definição e localização do narcisismo primário devido, entre outras questões, às dificuldades de diferenciação entre o Eu e o isso, ou ainda entre o autoerotismo e o narcisismo enquanto categoria analítica.
Por outro lado, os autores se esforçam em considerar como a definição de narcisismo secundário é “menos problemática” devido à sua participação na construção da segunda tópica, apesar de ele ser borrado na literatura freudiana ao longo do tempo até ser ausente no texto Esboço de Psicanálise, publicado postumamente em 1940. Roudinesco e Plon finalizam o verbete registrando como o conceito de narcisismo contribuiu para a conceituação do Ideal do Eu, assim como foi decisivo para dar arranque a “inúmeras elaborações pós-freudianas”, tais como o surgimento da Self Psychology, o desenvolvimento da concepção do estádio do espelho de Lacan e seus desdobramentos na literatura de Klein e Dolto.
SOBRE O CARÁTER METAPSICOLÓGICO DO TEXTO
Por volta de 1900, Freud percebe que não bastava apenas descrever os sintomas clínicos; era necessário construir um modelo teórico do funcionamento psíquico. A obra A Interpretação dos Sonhos marca o início dessa tentativa de explicar teoricamente como o aparelho psíquico opera por detrás dos fenômenos clínicos. Freud parte da observação dos sintomas e passa a formular uma espécie de “arquitetura da mente”.
Diante dessa necessidade, Freud organiza sua teoria a partir de três pontos de vista metapsicológicos: o econômico, relacionado à circulação da energia psíquica (libido); o dinâmico, voltado às forças em conflito no psiquismo; e o tópico, que busca compreender onde esses processos acontecem no aparelho psíquico.
Na tentativa de ampliar a teoria da libido, Freud volta-se ao estudo das psicoses e da megalomania, observando como a libido circula entre o Eu e os objetos. Nas neuroses, apesar do conflito psíquico, o sujeito ainda mantém ligação com os objetos e com a realidade. Já nas psicoses, ocorre uma retirada mais radical da libido dos objetos externos e seu reinvestimento no próprio Eu, comprometendo a relação do sujeito com a realidade.
A metáfora da ameba ilustra esse movimento de maneira significativa. A ameba representa o Eu, enquanto seus pseudópodes (“bracinhos”) simbolizam a libido dirigida aos objetos externos. Quando a ameba estende seus pseudópodes, ela estabelece contato com o ambiente (objeto); quando os recolhe, a energia retorna ao próprio organismo (Eu). Freud utiliza essa imagem para demonstrar a dinâmica entre libido do Eu e libido do objeto.
A partir dessas observações, Freud compreende que o narcisismo não se restringe à patologia, mas constitui parte fundamental da estrutura psíquica. O narcisismo primário corresponde ao investimento libidinal inicial do sujeito em si mesmo, sendo necessário para o desenvolvimento humano e para a constituição do Eu.
Foi a partir do conceito de narcisismo que Freud deslocou o foco exclusivo da patologia para uma compreensão estrutural do psiquismo, transformando a teoria da libido em um modelo mais complexo e abrangente do funcionamento mental.
O texto Introdução ao Narcisismo ocupa, portanto, uma posição importante na obra freudiana, por marcar uma transição teórica entre os primeiros modelos do aparelho psíquico e formulações posteriores sobre o ego, o ideal do Eu e o superego.
ENTRE A LIBIDO DO EU E A LIBIDO DO OBJETO
Nesse texto de 1914, Freud afirma que a libido é uma energia pulsional ligada ao desejo e que pode ser direcionada tanto para objetos externos quanto para o próprio Eu. Considerada uma das distinções mais importantes da teoria psicanalítica, a diferença entre libido do Eu (narcísica) e libido do objeto (objetal) permite compreender como o sujeito distribui sua energia psíquica entre si mesmo e o mundo externo, constituindo a base das relações amorosas, das identificações e também de diversos sofrimentos psíquicos.
Desde o começo da vida, essa energia encontra-se investida no próprio Eu da criança, em que o bebê vive uma experiência de relativa indiferenciação entre si e o mundo, experimentando-se como centro absoluto de satisfação. Com o desenvolvimento psíquico, parte dessa libido é deslocada para pessoas e objetos externos: pais, cuidadores, figuras amorosas, ideais e relações. Surge então a libido do objeto como um investimento afetivo direcionado ao outro. Amar alguém, desejar reconhecimento, criar vínculos e estabelecer laços depende dessa capacidade de deslocar a libido para fora de si.
Freud propõe uma relação dinâmica entre essas duas formas de investimento. Quanto mais libido é investido nos objetos, menos permanece concentrada no Eu; ao contrário, quanto mais a libido retorna ao Eu, menor tende a ser o investimento no mundo externo.
Não se trata de uma oposição fixa, mas de um movimento contínuo de circulação da energia psíquica. Nesta distinção, há a revelação que o amor ao outro nunca está totalmente separado do amor a si mesmo. Sendo assim, em toda escolha amorosa existe uma dimensão narcísica, pois o sujeito ama no outro aquilo que gostaria de ser, se perdeu ou mesmo que reconhece como extensão idealizada de si.
Freud observou que em certos quadros psicóticos ocorria uma retirada em massa da libido investida nos objetos externos. E essa energia retorna ao Eu, produzindo um aumento do investimento narcísico. O sujeito passa então a afastar-se da realidade compartilhada, voltando-se para si mesmo, para delírios ou formas de auto engrandecimento. Na neurose, o conflito permanece ligado aos objetos e ao recalque, enquanto na psicose há um recolhimento radical da libido objetal. A partir daí, é possível compreender fenômenos cotidianos como necessidade excessiva de admiração, fragilidade diante da rejeição, dependência afetiva, idealização amorosa e sentimentos de vazio quando o investimento no outro fracassa.
Quando um objeto amado é perdido, por exemplo, a libido pode retornar ao Eu. Esse retorno pode favorecer, em alguns casos, a elaboração e reorganização psíquica. Já em outros, pode gerar empobrecimento narcísico, melancolia ou identificação dolorosa com o objeto perdido. Para Freud, o sujeito constitui-se num equilíbrio instável entre investir em si mesmo e investir no outro. O Eu precisa preservar certo narcisismo para manter sua coesão e autoestima, mas também necessita deslocar libido para objetos externos para amar, criar vínculos e sustentar a vida social. O sofrimento psíquico frequentemente emerge justamente dos desequilíbrios dessa economia libidinal.
ENTRE O EU IDEAL E O IDEAL DE EU
Um dos desdobramentos do texto é o surgimento de noções como Eu Ideal e o Ideal de Eu. Essa categorização decorre do entendimento do narcisismo como um eixo estruturante da construção do self, isto porque o Eu ideal decorre da percepção de totalidade que caracteriza o narcisismo primário, momento em que o sujeito é o centro das atenções dos pais e/ou cuidadores, em que suas necessidades e desejos são atendidos com prontidão, enfim, um momento em que o self tem a percepção de que suas satisfações são prontamente atendidas. Dessa maneira, ao longo da vida o Eu Ideal se torna uma fantasia de completude, uma imagem por vezes buscada, mas nunca alcançada, uma falta norteia a relação do sujeito com o mundo.
Por sua vez, o Ideal de Eu emerge como uma espécie de instância constitutiva do narcisismo que mapeia a relação do sujeito com o mundo na medida em que ele escolhe objetos nos quais projeta aquele ideal de perfeição que um dia marcou o Eu Ideal. Nesse sentido, o Ideal de Eu se torna uma instância simbólica do sujeito com o mundo, um parâmetro ou uma referência normativa através dos quais ele modera seu narcisismo, ele reelabora seus comportamentos, suas formas de prazer e meios de satisfação.
ENTRE O NARCISISMO PRIMÁRIO E O NARCISISMO SECUNDÁRIO
Um dos temas centrais desse texto de 1914 é a distinção entre narcisismo primário e narcisismo secundário, conceitos essenciais para compreender a constituição psíquica do sujeito e algumas formas de sofrimento psíquico. A partir da observação de pacientes histéricos, neuróticos e esquizofrênicos, Freud observa que existem formas de abandono das relações com a realidade, ou seja, de destinação da libido ao mundo interno.
Isso o conduz à distinção entre o narcisismo primário e o secundário. O primeiro corresponde ao estado inicial e normal do desenvolvimento do Eu, sendo essencial à constituição subjetiva do sujeito. Nesse momento da vida, a criança ainda não diferencia claramente a si mesma do mundo externo. Ela é alvo dos cuidados e dos desejos parentais, ocupando o centro das atenções e encontra condições para a satisfação plena de suas necessidades e desejos.
Essa sensação de completude e onipotência funda a constituição da psiquê humana, pois o Eu se constrói através desse investimento libidinal inicial e é a partir dele que o sujeito poderá vir a estabelecer relações objetais, direcionando sua libido para pessoas e objetos externos.
Já o narcisismo secundário se caracteriza como um momento posterior do desenvolvimento psíquico marcado pelo retorno da libido dos objetos do mundo externo para o Eu, ou seja, o que o define é uma retirada do investimento libidinal, antes direcionado ao mundo externo, com o retorno da libido ao Eu.
Essa condição narcísica pode acometer o sujeito em situações de sofrimento psíquico, luto e doenças, sendo a sua expressão mais radical presente na esquizofrenia. Os efeitos desse movimento de reinvestimento narcísico seriam manifestações como grandiosidade, delírios e megalomania.
Na histeria e na neurose obsessiva, a libido permanece ligada às fantasias e mantém uma relação indireta com os objetos, enquanto que, na esquizofrenia ocorre um rompimento maior com o mundo externo, pois a libido retirada dos objetos retorna ao Eu.
Nesse sentido, Freud identifica um movimento antagônico entre a libido do Eu e a libido dos objetos, de modo que, quando a libido é retirada dos objetos, ela retorna ao sujeito, aumentando o narcisismo. Por outro lado, quanto mais intensamente a libido é direcionada aos objetos externos, menor seria o narcisismo.
Desse modo, Freud demonstra que o narcisismo não constituiria apenas uma fase infantil do desenvolvimento, mas uma dimensão permanente da vida psíquica, que se reorganiza conforme a dinâmica interna do sujeito e suas relações com o mundo externo.
O NARCISISMO COMO ELEMENTO CONSTITUTIVO DA FORMAÇÃO DO SELF
No artigo de 1914, o narcisismo deixa de ser concebido exclusivamente como uma patologia ou desvio da sexualidade e é apresentado como uma fase necessária, universal e estruturante do desenvolvimento psíquico, desempenhando papel decisivo na formação do Eu (self).
Nele, Freud rompe com a ideia de um Eu originário ao afirmar que “uma unidade comparável ao Eu não existe desde o começo […]; o Eu tem que ser desenvolvido”, sendo que tal afirmação implica que o sujeito não nasce com uma identidade psíquica organizada, mas sim atravessa um processo de constituição. Portanto, o narcisismo aparece como a operação psíquica fundamental que possibilita a emergência dessa unidade.
Antes disso, a criança encontra-se em um estado denominado autoerotismo, no qual as pulsões estão dispersas e o corpo é experimentado de forma fragmentada, sem uma representação integrada de si. É precisamente a partir do investimento libidinal no próprio Eu que se inaugura o narcisismo, configurando o que Freud denomina de narcisismo primário.
Presumindo que esse fenômeno é universal, ele se torna um paradigma de normalidade: através dele, o indivíduo vive uma experiência de completude e autossuficiência, frequentemente descrita como um estado de perfeição narcísica. Essa condição constitui uma base fundamental para a posterior organização da vida psíquica.
Ao abordar os estágios subsequentes, Freud afirma que “o desenvolvimento do Eu consiste num distanciamento do narcisismo primário” (Freud, 1914), indicando que o crescimento psíquico envolve o deslocamento da libido do Eu para objetos externos, dando origem ao amor objetal, no qual o sujeito investe em outras pessoas. No entanto, esse movimento não elimina o narcisismo, que permanece como uma dimensão constitutiva do psiquismo, podendo ser reativado ou reorganizado ao longo da vida.
Dessa forma, o narcisismo ocupa uma posição central na teoria freudiana do desenvolvimento: ele não apenas antecede as relações com os objetos externos, mas também serve como base para a construção da identidade e das formas de investimento libidinal. O Eu, longe de ser uma entidade fixa e pré-existente, revela-se como um produto de relações libidinais, cujo ponto de partida é o investimento narcísico.
Em síntese, o narcisismo, tal como concebido por FrEud, deve ser entendido como uma fase normal, necessária e constitutiva do desenvolvimento humano, sem a qual não seria possível a formação do self. Ele marca a passagem de um estado de dispersão pulsional para a unificação psíquica, estabelecendo as condições para a constituição do sujeito e para o estabelecimento posterior das relações com o mundo externo.
CONCLUSÃO
O texto Introdução ao Narcisismo representa um marco fundamental na teoria freudiana ao deslocar o narcisismo do campo exclusivo da patologia para compreendê-lo como dimensão estruturante do funcionamento psíquico
Ao longo do texto, conceitos como narcisismo primário e secundário, ideal do Eu, Eu ideal e economia libidinal demonstram a complexidade da dinâmica psíquica proposta por Freud e sua permanência na teoria psicanalítica contemporânea. Mais de um século após sua publicação, o texto permanece atual ao possibilitar reflexões sobre as formas contemporâneas de subjetivação. Em uma sociedade marcada pela hiperexposição, pela busca constante de reconhecimento e pelas exigências de desempenho e idealização de si, os conflitos narcísicos assumem novas configurações. Nesse contexto, questões relacionadas à autoestima, ansiedade, depressão e sentimento de inadequação podem ser compreendidas também a partir da tensão entre o Eu e os ideais impostos socialmente.
A partir da perspectiva freudiana, é possível pensar que parte do sofrimento contemporâneo está relacionada à maneira como a libido é constantemente investida na imagem de si e na necessidade de validação externa. O sujeito contemporâneo encontra-se frequentemente submetido a processos contínuos de comparação, reconhecimento e desempenho, mantendo o Eu em permanente estado de vigilância e avaliação. Dessa forma, o investimento narcísico pode tornar-se excessivamente dependente da aprovação externa, produzindo fragilidade psíquica, insegurança e sentimentos persistentes de insuficiência.
Ao mesmo tempo, Freud demonstra que o sofrimento não decorre do narcisismo em si, já que ele constitui uma dimensão necessária da estrutura psíquica, mas dos desequilíbrios na dinâmica entre libido do Eu, libido do objeto e idealizações excessivas. Assim, o conceito freudiano de narcisismo continua sendo uma importante ferramenta teórica para pensar não apenas a clínica psicanalítica, mas também os modos de existência e sofrimento presentes na contemporaneidade.
Ao mesmo tempo, é válido destacar que o conceito freudiano de narcisismo também se desdobra no campo das Ciências Humanas e Sociais, tais como a obra de Zigmunt Bauman (1925-2017). Na virada para o século XXI, ele substitui o termo “Pós-Modernidade” pela noção de “liquidez” confluindo a Teoria Crítica com os aportes freudianos a fim de compreender como a identidade social se torna uma das principais commoditties da sociedade pós-industrial, por assim dizer. Isso implica em compreender que os sujeitos passam a ser decisivamente atravessados por múltiplas formas de mercantilização em sua relação com o mundo, ou melhor, o narcisismo, então, é afetado por lógicas afetivas, culturais e simbólicas que estão comprometidas pelos impactos da mercantilização – ou mesmo da financeirização – da vida. Em suma, em Bauman, a vida no contemporâneo é “líquida” porque a construção do narcisismo está implicada pelas formas de subjetivação neoliberal.
BIBLIOGRAFIA
ALMEIDA, A. Psicanálise de boteco
DUNKER, C. Falando Nisso
FREUD, S. Obras completas (1914-1916), V.12. SP: Cia das Letras, 2010
IACONELLI, V. Isso não é uma sessão de análise
LAPLANCHE & PONTALIS. Vocabulário de Psicanálise. SP: Martins Fontes, 2001


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