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Lacan, corpo e linguagem

  • Foto do escritor: Fábio Monteiro
    Fábio Monteiro
  • há 6 horas
  • 18 min de leitura

RESUMO: O presente artigo propõe algumas reflexões sobre a teoria lacaniana solicitada por duas questões, que segue indicadas no corpo do texto. A proposta também envolve uma espécie de balanço das teorias, temas e conceitos estudados ao longo do primeiro semestre do curso de Pós-Graduação em Psicanálise na Univap, em 2026.


Jacques Lacan (1901-1981). Admirado por muitos, detestado por outros tantos, o psicanalista francês refundou a sua área do conhecimento a partir de questões do seu tempo presente durante toda a sua existência.
Jacques Lacan (1901-1981). Admirado por muitos, detestado por outros tantos, o psicanalista francês refundou a sua área do conhecimento a partir de questões do seu tempo presente durante toda a sua existência.

INTRODUÇÃO

Em seu livro Lacan, a despeito de tudo e de todos (2011), Roudinesco nos alerta, logo de saída, que Lacan foi uma pessoa de múltiplas facetas e um mestre paradoxal. Nascido e criado em uma família pequeno-burguesa e católica do começo do século XX, ele se aventurou na Medicina, Psiquiatria, transitou com a inteligência surrealista francesa da década de 1930 para, então, “reintroduzir o pensamento filosófico no corpus freudiano”.

Essa afirmação em particular me trouxe uma boa chance de compreensão da obra de Lacan, pois apontou para como os conceitos e categorias filosóficos poderiam ser oportunas chaves de acesso ao universo lacaniano.

Dessa maneira, aos poucos, me dei conta de que a reconstrução da noção de sujeito empreendida por Lacan passava, por assim dizer, de uma apropriação da dialética hegeliana. Traduzindo, enquanto Freud afirma que o sujeito resulta de um ato psíquico do narcisismo enquanto eixo estruturante das relações libidinais, Lacan retorna a noções hegelianas como consciência em si e consciência para si para compreender o sujeito como uma negatividade, uma condição clivada entre as coisas (entes) e o potencial de reconhecimento de si.

Entretanto, evidentemente, o détour lacaniano foi mais complexo. Fascinado pelo fascínio que os intelectuais surrealistas demonstraram pela sua forma de pensar e pelas suas teorias e acolhido por nomes de peso do pensamento francês do pós-guerra, dentre eles Louis Althusser (1918-1990), Lacan transitou da Matemática à Poesia contando com a companhia de nomes como Kojève, Politzer, Bataille, dentre outros. Em resumo, foi através dos comentários do prof. Dunker[1] que consegui compreender melhor a grande constelação de referências intelectuais absorvidas e elaboradas por Lacan.

Retomando a noção de sujeito a partir de Hegel, foi através das contribuições de Kojève, intérprete do filósofo alemão, que Lacan tomou a dialética do senhor e do escravo para propor o sujeito como uma espécie de desdobramento de um ato de reconhecimento, ou melhor, um efeito de linguagem, ou ainda, um ente que se articula a partir de juízos simbolizantes através de atos simbólicos.

Isso nos leva então a uma outra dimensão fundamental (se assim for possível dizer) do programa lacaniano de refundação da teoria freudiana. É bem conhecida a sentença lacaniana de que “o inconsciente se estrutura enquanto linguagem”... Contudo, em paralelo ou simultaneamente ao recurso da Linguística de Saussure (1857-1913), faz-se importante destacar a presença do Estruturalismo de Lévi-Strauss (1908-2009) e do Funcionalismo de Durkheim (1858-1917) na redefinição da noção de inconsciente em Lacan.

Guardados os pontos de distanciamento entre ambos os pensadores franceses, dentre aqueles que os tornam afins estão a proposição de uma antropologia, de um pensamento social sobre as estruturas (sociedade) e suas relações com o singular, isto é, o indivíduo. Em comum, de certa forma, suas teorias se fundam nas tensões entre a diversidade e a unidade, o contingencial e o necessário, em suma, entre o universal e o particular.

Ambos podem ser considerados como exemplos de uma antropologia da articulação: enquanto estruturalistas, eles desenvolveram constructos que demonstram como o sujeito se apropria das coisas que estão no mundo e as sintetiza em símbolos, representações, de certa forma, em uma linguagem. Por exemplo, em Lévi-Strauss, o conceito “pensamento selvagem” validou a complexidade da arquitetura simbólico-cultural dos povos originários demonstrando como deram nomes, semblantes e sentidos às coisas. Por sua vez, em Durkheim, noções como “fato social” (emprestada de seu tio, Marcel Mauss) implicam na demonstração de como existem eventos que engrenam, simultânea e coercitivamente, sociedade e indivíduo como algo novo, uma condição outra.

Essas considerações, mesmo que pontuais, nos ajudam a chegar perto de como Lacan pensou o inconsciente, pois ele seria se manifestaria, justamente, ali na dobradiça, na intermitência da relação do sujeito com a linguagem. Visto de outro ângulo, enquanto em Freud recorre-se aos conceitos e imagens advindos, por exemplo, da Arqueologia para se pensar o inconsciente como um palimpsesto, um sótão ou um porão anarquívico que ora sustenta seus traços, ora os apaga, em Lacan o inconsciente ou é ou se manifesta nas articulações do sujeito (indivíduo, o particular) com a linguagem (a estrutura, o universal).

Então, diante disso, tem-se uma pergunta para se seguir adiante: o que resta ao indivíduo, uma vez que a linguagem está aí, dada de antemão? Uma vez que ela é coercitiva por constituição, contingencial por natureza, relacional por definição, anterior e exterior ao indivíduo, o que resta, então, ao sujeito?

 

Questão 1. As formulações metapsicológicas construídas por Sigmund Freud (1856 – 1938) propõem uma razão inconsciente para a subjetividade humana, na qual o aparelho psíquico é efeito de uma operação singular, tal qual um ato criativo ou ação psíquica que engendra uma relação entre corpo, linguagem e instâncias psíquicas. Considerando essa premissa, que abarca que a causalidade psíquica em detrimento de uma razão baseada em premissas essencialmente biológicas do advento da linguagem no ser humano e da apropriação orgânica do corpo; DISSERTE a partir de Jacques Lacan (1901 – 1981) possíveis correlações entre CORPO, EU, GOZO, LINGUAGEM, INCONSCIENTE e SUJEITO, considerando as especificidades dos conceitos e suas articulações teóricas entre IMAGEM ESPECULAR, OBJETO a, TRAÇO UNÁRIO, GRANDE OUTRO, e SIGNIFICANTE.

 

Q01. CORPO, IMAGEM E EU EM LACAN

Você pensa que eu tenho tudo

E vazio me deixa

Mas, Deus não quer que eu fique mudo

E eu te grito essa queixa

Queixa, Caetano Veloso. Cores, Nomes (1982)

 

Caetano escreveu Queixa para Dedé, sua primeira esposa, representada pelo eu lírico, simultaneamente como “princesa”, “senhora” e “serpente”. Tal como Hécate, mulher de muitas faces e fases, essa mulher é representada como aquela capaz de enfeitiçar, envenenar e desiludir o eu lírico. Diante dela, o eu lírico assistiu ao despertar de um amor delicado dentre si, algo que, ele afirma, seria coisa rara no universo dos homens.

Uma vez enredado no feitiço dessa princesa, o eu lírico então se perde de si; ao se dizer arrebatado pelos venenos advindos de seu mundo feminino, é como se demandasse por lucidez diante das frestas de suas facetas e clamasse por sentidos em meio à sinuosidades dos interstícios dessa donzela-mãe-anciã.

Ora atraído pelo fascínio das imagens de princesa, ora ameaçado pelos espectros dos significantes da serpente, o eu lírico vacila e expressa seu sintoma ao registrar “Você pensa que eu tenho tudo/ e vazio me deixa/ mas, eu te grito essa queixa”. Amante em desilusão, o que resta ao eu lírico? Fazer pedidos àquela que ele enxerga como senhora de seu destino, “E agora, me diga aonde eu vou”?

 

Sabe-se aqui que Lacan, digamos, centrifugou essas e outras referências teórico-conceituais tendo em vista a produção de um programa teórico-prático da Psicanálise. Isso significa dizer que as dimensões até aqui citadas de maneira didática não incidem em Lacan como uma espécie de filiação, no sentido tradicional do termo. Na realidade, elas ocorrem de maneira simultânea, ou melhor, complexa tal como esse termo é pensador, por exemplo, por Morin (1990). De maneira dialógica e hologramática, em Lacan, cada categoria lacaniana inscreve em si o todo dos princípios hegelianos, a estrutura do estruturalismo, o jogo de signos da linguística saussuriana.

A partir disso, a leitura do artigo Considerações sobre o eu e o corpo em Lacan (CUKIERT, PRISZKULNIK, 2002), de Cukiert e Priszkulnik, ganha força em direção à compreensão da teoria lacaniana na medida em que é possível compreender o corpo – e, por extensão, a construção do eu – menos como uma condição biológica que uma condição simbólica e psíquica. Em primeiro lugar, as autoras chamam a atenção para como o corpo deve ser pensado a partir das tópicas que compõem a Trilogia do Imaginário, Simbólico e Real.

Esses três registros são, por definição, os “espaços habitados pelos seres falantes” e assim devem ser interpretados como instâncias autônomas, mas articuladas e constitutivas de uma estrutura. Através desses registros, o corpo é atravessado, digamos, por diferentes dinâmicas e elementos que marcam a constituição do eu-sujeito.

De Henri Wallon (1879-1962), Lacan assumiu o entendimento de que o desenvolvimento do eu se dá através de três movimentos da criança: em primeiro lugar, ela se reconhece enquanto imagem, isto é, um outro; então, esse vir-a-ser-sujeito se confunde com a própria imagem para, enfim, esse vir-a-ser-sujeito reconhece essa imagem enquanto um valor simbólico. Essa perspectiva, conhecida como transitivismo, implica em reconhecer que a formação do sujeito é uma relação objetal, ou melhor, passa pela maneira como atribuímos nossas próprias sensações, emoções e experiências para o mundo exterior, e vice-versa.

Em outras palavras, a compreensão da condição ontológica do sujeito, assim como a sua constituição psíquica deriva de noções polares (interior-exterior, sujeito-objeto, agente-paciente), o que nos permite afirmar algo assim:

  • Em um primeiro momento, a relação entre o sujeito e a imagem é uma relação de oposição, pois implica em uma espécie de estranhamento. Em Lacan, entendo que isso equivaleria a um momento em que o sujeito, dotado de uma prazerosa sensação de unidade e conjunto, se percebe múltiplo, fragmentado ou mesmo contingencial diante dos primeiros reconhecimentos da pessoa cuidadora, da força estranha e devastadora das primeiras palavras ouvidas, enfim, do alienamento provocado pelas primeiras condições de reconhecimento do mundo;

  • Então, ao se confundir com a imagem, o vir-a-ser-sujeito se envolve em uma relação de inversão, posto que as relações de causalidade são difusas, talvez algo como a condição esquizoparanóide para Klein: diante da percepção de que estamos cindidos do mundo, tendemos a manter uma relação difusa e incerta sobre as fontes do prazer e do desprazer. Em Lacan, entendo que isso equivaleria a um momento em que nos posicionamos de maneira ambivalente diante das condições de nomeação propostas pelo mundo: de modo precário, tentamos ser agentes das nossas relações com as pessoas e os afetos, códigos culturais e signos que estão dados, enquanto, no mais das vezes, nos enxergamos como pacientes (quando não vítimas) deles;

  • Segue-se, por desdobramento, uma relação de indeterminação, afinal o devir do sujeito se percebe diante de uma totalidade anterior e exterior a ele; mergulhado em suas tramas (que alguns chamam de “cultura”, outros de “fato social”; aqueles de “luta de classes”; em Lacan, esse Grande Outro, creio, o reino dos significantes), o devir do sujeito tende a compreender a sua parcialidade, ou mesmo a sua precariedade diante dela. Em Lacan, creio eu, essa condição revela ao sujeito a negatividade do real, ele se dá conta da diferença, no sentido filosófico do termo, ou seja, de um devir em constante fluxo; visto de outra forma, creio que, ao menos, essa condição exige do sujeito o abandono da crença da transparência dos discursos que, desde então (e ainda hoje) nos constituíram para assumir a condição de opacidade do Real;

 

Vale destacar que Lacan, evidentemente, não lê esses momentos como algo processual ou como etapas de condicionantes. Como afirmam Cukiert e Priszkulnik, Lacan se vale dessas contribuições para construir o estádio do espelho como um momento lógico na estruturação do sujeito. Assim como também estruturou a sua tópica conferindo a ela um estatuto ontológico e fenomenológico, como propôs Heidegger, para quem o estudo de ser deriva da análise de como ele se manifesta, de como ele aparece, de como ele-é/está-aí (da-sein) – isto é, através da linguagem.

Avançando nas contribuições do artigo das autoras, elas descrevem as transformações pelas quais a noção de estádio do espelho passou ao longo do tempo. Primeiro, elas registram como, entre os anos 1930 e 1940, o estádio do espelho seria esse primeiro momento “original”, de oposição, em que “a partir da imagem corporal, a criança estabelece uma diferença entre seu corpo e o mundo exterior”. Nessa condição, existe uma “antecipação imaginária de um corpo unificado” que marca o ingresso do sujeito no Imaginário, sendo esta uma relação tensa porque é uma relação intersubjetiva e, portanto, o eu do sujeito ser reconhece através de um outro, que lhe é estranho.

Em meados dos anos 1950, Lacan articula a noção do estádio do espelho a partir do registro do Simbólico, como se ele o operasse a partir de uma relação de inversão: citando Quinet, a introdução do grande Outro (a cultura, o fato, o significante), faz com que “o sujeito admire seu eu enquanto um eu ideal como um objeto do desejo do Outro”. Em lugar da alienação na imagem, o sujeito passa a ser reinterpretado a partir de uma alienação estrutural, posto que o seu devir incide no Outro, ou seja, em uma vasta cadeia de significantes. As autoras afirmam que, mais tarde, nos anos 1960, Lacan rearticula a noção a partir do registro do Real – ou seja, em uma operação de indeterminação – e “introduz o olhar como objeto a no lugar do Outro”.

Em resumo, o recurso ao artigo de Cukiert e Priszkulnik contribui para que se compreenda como, em Lacan, o corpo é, antes de tudo, um efeito psíquico de um “corpo que fala”. E, sendo o sujeito uma dobradiça entre a linguagem e suas representações, uma clivagem entre os juízos simbolizantes (da ordem do inconsciente) e os atos simbólicos (da ordem da fala), ele se constitui enquanto negatividade porque ou se depara com antecipação da imagem refletida por um Outro, ou pela alienação enquanto desejo de um Outro, ou enquanto experiência especular dominada pela pulsão escópica do Outro – ou ainda, quem sabe, por algumas condições simultâneas dessas experiências.

Uma vez que a ordem simbólica preexiste ao sujeito - e, da mesma forma, subsiste fora dele e pode persistir vivificada pelo seu nome ou sua experiência – sempre haverá nele algo de devir, que lhe escapa e que está posto enquanto inconsciente. Esse hiato entre o que está posto e o que se revela marca o corpo enquanto uma vertente simbólica que se inscreve na vida vivida e que pode ser decifrado pela falação.

Enquanto manifestação-aí do significante, portamos um corpo-falante cujo semblante ora promove reconhecimento, ora promove distanciamento e, por vezes, é capaz de se posicionar enquanto significante ao aglutinar elementos contingenciais e transformá-los em algo novo e que se mostra como necessário. Visto de outro ângulo, não seria essa mesma a condição do eu lírico de “Queixa”, e também a nossa diante das condições de enamoramento encontradas por aí?

 

Questão 2. A partir de Lacan, e considerando o caminho organizado na questão 01, como você organizaria uma escrita sobre as articulações propostas por Lacan entre corpo imaginário, corpo simbólico e corpo real? Utilize o trabalho de Dunker (2011) para auxiliar na construção do pensamento.

 

Q02. CORPO IMAGINÁRIO, CORPO SIMBÓLICO, CORPO REAL

O que será que me dáQue me bole por dentro, será que me dáQue brota à flor da pele, será que me dáE que me sobe às faces e me faz corarE que me salta aos olhos a me atraiçoarE que me aperta o peito e me faz confessarO que não tem mais jeito de dissimularE que nem é direito ninguém recusarE que me faz mendigo, me faz suplicarO que não tem medida, nem nunca teráO que não tem remédio, nem nunca teráO que não tem receita

O que será? (A flor da pele). Milton Nascimento, Geraes (1976)

 

Hannah Arendt, em algum momento, afirmou que adorava a compreensão. Afinal, ele provoca um sentimento de familiaridade, uma forma de pertencimento ao mundo. Caminhando e ouvindo música, me veio um assombro: essa composição, originalmente feita para representar a Dona Flor e seus dois maridos, não seria justamente a condição humana diante do real lacaniano?

 

A seguir, tem-se um esforço de responder à questão 2 através de comentários e interpretações sobre alguns Seminários de Lacan lidos nesse primeiro semestre da Pós-Graduação em Psicanálise. Particularmente, uma fonte de estudo serviu como um auxílio luxuoso durante as segundas leituras dos textos lacanianos, a saber as propostas apresentadas pelo prof. Dunker[2].

Assim como Roudinesco, Dunker nos alerta sobre os muitos neologismos lacanianos, as múltiplas referências filosóficas e outras transversais, e nos deixa uma pista central: a necessidade da prática da Close Reading, isto é, de uma leitura estrutural dos conceitos e categorias a partir de suas articulações internas. Isto porque, como foi dito em sala de aula, os textos lacanianos são transcrições de comunicações orais e, portanto, já se mostram como uma forma de desdobramento que exigem tanto comentário – estar atento ao que o texto diz – quanto interpretações, isto é, lançar-se em suas frestas em buscas de outros sentidos.

Dadas essas considerações iniciais, o texto se dirige em direção às articulações propostas por Lacan entre corpo imaginário, corpo simbólico e corpo real a partir do artigo Tópica do Imaginário (Cap. VII, Seminário 1). Nele, Lacan se propõe a retomar o “jogo recíproco” entre as suas tópicas estruturais, o Imaginário, o Simbólico e o Real.

O seu ponto de partida é um comentário de uma aluna de seus seminários, a Srta. Gélinier, que identifica uma espécie de paradoxo sobre o desenvolvimento do ego na teoria kleiniana. Em princípio, como pode existir um ego precoce que, ao mesmo tempo, se mostra como um obstáculo ao desenvolvimento do sujeito?

A partir disso, Lacan nos chama a atenção para como a teoria kleiniana parte da teoria pulsional freudiana e pretende se afirmar como uma teoria das relações objetais. Isso significa dizer que o sujeito, desde a sua mais tenra idade, se desenvolve através de representações de si e também de pessoas, sobretudo através do corpo da mãe, esse “continente” prenhe de conteúdos, a exemplo do seio bom e do seio mau.

Sendo assim, uma vez que a teoria kleiniana se baseia em relações objetais, por definição, a formação do sujeito é atravessada por imagens, ou melhor, por relações imaginárias através das quais o sujeito se desenvolve através dos “jogos e projeções, introjeções, expulsões, reintrojeções” na sua lida com os objetos. Portanto, isso faz com que com Lacan lance a seguinte questão logo no começo do seminário, não seria este o domínio do imaginário?

Ato contínuo, Lacan retoma o esquema do processo do inconsciente em Freud para demonstrar como a psicanálise emprestou analogias de outras áreas do saber, tal como a Geologia, nos seus esforços de conceituação teórica e técnica. Da mesma forma, Lacan argumenta a respeito de como a Óptica pode servir aos seus propósitos de refundação da teoria freudiana, desde que se tenha em mente que ela “repousa inteirinha sobre uma teoria matemática sem a qual é absolutamente impossível estruturá-la”. Isso implica em reconhece que, pelo viés da Óptica, todo ponto no espaço real corresponde a um ponto e só um num outro espaço, que é o espaço imaginário”.

Faço aqui uma pausa, pois considero importante reforçar o papel dessa argumentação. Creio eu que esse seja uma espécie de arrimo da teoria lacaniana, pois entendo que aqui Lacan evidencia, por exemplo, como ele compreende a formação do sujeito e de seu corpo como relações dialéticas primeiro entre a ordem imaginária e, então entre a ordem simbólica.

A descrição e explicação do Experimento do Buquê invertido é seguida da retomada do estádio do espelho tendo em vista uma inversão da lógica freudiana e mesmo kleiniana: o sujeito e o desenvolvimento do ego não derivam das relações pulsionais mediadas pelo narcisismo ou das relações objetais; na realidade, eles derivam de um domínio imaginário, constituído pela sua relação com o Outro, enfim, uma relação antecipada atravessada pela demanda de reconhecimento.

As relações de oposição entre o vaso e o seu conteúdo no experimento são assumidas como uma relação de “continente” e “conteúdo”: o corpo do vir-a-ser-sujeito, cindido, tal como um recipiente, é antecipado pelos conteúdos (elementos, fatores, enfim) da relação imaginária com o Outro. É o que estou entendendo quando Lacan afirma

O sujeito antecipa-se ao acabamento do domínio psicológico, e essa antecipação dará seu estilo a todo exercício posterior do domínio motor efetivo.

É a aventura original através da qual, pela primeira vez, o homem passa pela experiência de que se vê, se reflete e se concebe como outro que não ele mesmo – dimensão essencial do ser humano, que estrutura toda a sua vida de fantasia.

           

Traduzindo, em nossa mais tenra idade, somos atravessados não só pelo corpo, calor e afetos da nossa pessoa cuidadora, mas também pela estesia do ambiente, seus aromas, sons, ruídos e, sobretudo, pela sua fala - seu tom, seu timbre e sua possível musicalidade. Tanto é assim que, a seguir, Lacan retoma a figura do olho dentro do Experimento reafirmando que ele seria “o símbolo do sujeito”, pois a “constituição do mundo tal como ela resulta disso depende da relação do sujeito”, ou seja, da sua posição em relação à palavra.

Lacan conclui o artigo retomando a reavaliação crítica da teoria kleiniana ao destacar que a criança foi capaz de simbolizar o complexo de Édipo porque Klein “introduziu a verbalização”. A partir de então, o trenzinho de Dick passa a simbolizar, por exemplo, as relações de tamanho entre ele e seu pai e um suposto retorno ao interior do continente materno porque as “portas do inconsciente foram abertas”.

Nas palavras de Lacan

É o discurso de Melaine Klein que enxerta brutalmente sobre a inércia eu-óica inicial da criança as primeiras simbolizações da situação edipiana.


E o que isso significa? Entendo que, na prática, o vir-a-ser-sujeito foi lançado em uma complexa rede de significantes capazes de lhe oferecer a segurança, o conforto e bem-estar para que se desenvolva. Em contrapartida, a princípio, ele está condenado a lidar com o objeto a, pois ao deslizar a sua existência desejante entre cuidados, despedidas, carinhos, afetos negativos, relacionamentos, laços e pactos em crise, fatalmente ele vai ter que aprender a lidar com o intervalo fundamental entre o Real (aquilo que é) e as narrativas que ele conta de si para si.

Objeto a esse que “presentifica uma relação essencial com a separação como tal”[3], pois, enquanto expressão da cisão fundamental em relação ao Outro, e que lança o sujeito no Simbólico, ele é um vazio, o furo condicionante do desejo. Enquanto necessidade estrutural, a relação do sujeito com o objeto a exige tanto a estruturação do desejo na fantasia quanto a implicação de seu corpo diante dessa falta. Afinal, é nele que são inscritas as marcas do prazer, do desprazer, do medo e da angústia.

Entendo que a leitura desse artigo demonstra como Lacan parte de uma avaliação crítica de um caso de Melaine Klein para retomar o seu estádio do espelho e explicar como a Óptica, através do Experimento do buquê invertido, serve aos princípios da Psicanálise. Nesse sentido, ele retoma a proposta de refundação da noção de sujeito, afinal o corpo imaginário precede a constituição do sujeito, assim como de seu desenvolvimento motor, enquanto o corpo simbólico é aquele lançado na ordem simbólica da palavra, da fala, enfim da linguagem.

Sendo assim, entendo que seja possível afirmar que, em Lacan, esse corpo com o qual vivemos – esse da condição física, biológica, neurológica -, é um corpo enfeixado pelas dimensões do Imaginário e do Simbólico devido à sua relação com o Grande Outro, assim como se dialetiza pelas suas relações com o Inconsciente.

A leitura de O Inconsciente freudiano e o nosso contribuiu para se compreender como Lacan retorna a Kant em busca de um aporte para refundar essa categoria. Ao se debruçar sobre as categorias e condições do pensamento, Kant considera que a relação de causalidade permite um grau de incompreensão, isto é, a Lógica encontraria limites diante da compreensão de certas conexões de causa e efeito. Esses limites configurariam uma zona de desconexão, uma hiância.

Lacan retoma esse conceito, põe em perspectiva crítica a causa enquanto categoria filosófica e se dirige a Freud para questionar a noção de inconsciente como uma espécie de pano de fundo psíquico. Nesse texto, Lacan defende que o inconsciente seja assumido na dimensão de uma “sincronia” de um “ser que sujeito da enunciação”, ou seja, ele exige que se trate de uma noção de sujeito “enquanto indeterminado”.

O inconsciente então se manifesta naquilo que escapa ao sujeito na sua lida com a ordem simbólica, social e cultural que está dada de antemão, e assim continuará à revelia dele. Dessa forma, a noção de corpo, creio, permanece em suspenso, como uma cifra, uma notação que é atravessada ou cortada à medida que o sujeito experimenta a sua existência.

Existência essa através da qual ele empenha aquilo que Lacan chama de traço unário, grafado como S1. Em linhas gerais, esse traço é que o senso comum chama de identidade, de personalidade, enfim, na linguagem das Ciências Humanas e Sociais, aquilo que transforma o indivíduo em pessoa. Porém, retomando aqui as demandas do circuito lacaniano, o traço unário se mostra como uma marca singular do sujeito e, portanto, como mais um significante puro em meio à cadeia de significantes nas quais nossos corpos estamos inseridos.

Em resumo, a questão 2 solicita considerações sobre as relações da estrutura tópica lacaniana com a noção de corpo. Aventuro-me aqui a dizer que compreendi que o corpo real seria aquela dimensão constituída pelas afecções do inconsciente sobre o nosso corpo biológico, ou melhor, é o que resta de nossa corporeidade no âmbito do inconsciente; esse corpo real se manifesta como angústia, tal como o eu lírico de O que será?; vacilando ao longo de uma linha melódica marcada por altos e baixos, a sua falação opera em tom menores agudizando o seu sentido existencial. De certa forma – ou mesmo, em larga medida – essa não é a mesma natureza de nossa voz no divã?

Já o corpo simbólico não seria ele mesmo o processo, decurso ou desenvolvimento da incorporação das dimensões simbólicas que atravessam a nossa corporeidade, por assim dizer, propriamente dita? Visto de outro ângulo, o corpo simbólico é aquele que não escapa às mediações da língua, da sintaxe, da cultura, enfim do que está dado no mundo. Portanto, enquanto performance, ele é uma constante que perfila o sujeito clivado entre o corpo real e o imaginário.

Esse, por sua vez, o corpo imaginário seria, creio, aquele formado pelo olhar do outro desde os primeiros momentos de formação do vir-a-ser-sujeito e que, desde então, assim segue sendo moldado por ele. Enquanto superfície, me parece que ele media as relações entre o corpo real e simbólico enquanto sofre as marcas lançadas pelos significantes dos outros.

 

CONCLUSÃO          

Em sua primeira parte, o artigo se esforçou em estabelecer algumas reflexões sobre o pano de fundo histórico, social e filosófico no qual Lacan desenvolveu sua vida e obra. A partir da leitura de artigos oferecidos pela bibliografia oficial, foi possível fazer pesquisas seguras de comentadores (as) da obra de Lacan que trouxeram importantes aportes para o comentário e interpretação de suas categorias.

Em linhas gerais, foi possível compreender as razões pelas quais Lacan é considero um intérprete de Freud que refundou a Psicanálise, sobretudo a partir do Pós-Guerra. Conciliando e transcendendo áreas do saber diversas desde os anos 1940 (como proposto mais tarde pelo espírito revolucionário de Maio de 68), forjando categorias e neologismos (ou empenhando-se na transvaloração dos conceitos, como propôs Nietzsche) e transitando entre a universidade e o espaço público, Lacan foi intelectual à frente de seu tempo, ou melhor, como afirma Roudinesco, ele criou condições para que o “século XXI” seja lacaniano.

A tentativa de esclarecer a estrutura tópica do Imaginário, Simbólico e Real e estabelecer suas relações com a noção de corpo a partir das categorias solicitadas pelos professores exigiu um grande esforço de reinvenção intelectual e pessoal em direção a um saber complexo, aberto e múltiplo. De coração, muito obrigado pelas oportunidades que vocês ofereceram nesse semestre.

  

BIBLIOGRAFIA

CAETANO VELOSO. Cores, Nomes, 1982

CUKIERT, m.; PRISZKULNIK, L. Considerações sobre o eu e o corpo em Lacan. Estudos de Psicologia, (Natal 7), jan. 2002. Disponível em: https://www.scielo.br/j/epsic/a/B6bDhRYBMtzmhTs6m4tW4rd/abstract/?lang=pt Acesso em 1 jun. 2026

DUNKER, C. Lacan: uma linguagem para o real. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=AbHNb1C8znM&pp=ygUMZHVua2VyIGxhY2Fu Acesso em 1 jul. 2026

DUNKER, C. Como ler Lacan? Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=LtnLJDrsEg4&pp=ygUMZHVua2VyIGxhY2Fu Acesso em 1 jul. 2026

DUNKER, C. Conceitos fundamentais de Lacan. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=0h_XnFaH8uU&list=PLlHDVKUxuaFrt_hmYrQ0OBKw9bx6wm8r5 Acesso em 1 jul. 2026

DUNKER, C. O estilo de Lacan. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TtJT7PCp-w0&pp=ygUMZHVua2VyIGxhY2Fu Acesso em 1 jul. 2026

MILLER, G. Um encontro com Lacan, 2011

MILTON NASCIMENTO. Geraes, 1976

LACAN, J. O Seminário, Livro 1: Os escritos técnicos de Freud, 1953-1954. RJ: Zahar, 1979

_________ O Seminário, Livro 8: A transferência 1960-1961. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. RJ: Zahar, 1991

_________ O Seminário, Livro 10: A angústia. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. RJ: Zahar, 2005

_________ O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. RJ: Zahar, 1985

 

NOTAS

[1] DUNKER, C. Conceitos fundamentais de J. Lacan. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=0h_XnFaH8uU&list=PLlHDVKUxuaFrt_hmYrQ0OBKw9bx6wm8r5 Acesso em 2 jul. 2026

[2] DUNKER, C. Como ler Lacan? Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=LtnLJDrsEg4&pp=ygUWY29tbyBsZXIgbGFjYW5hIGR1bmtlcg%3D%3D Acesso em 1 jul. 2026

[3] Lacan em “As pálpebras de Buda”.

 
 
 

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